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21.09
Como reencontrei o ballet
Por Dora de Paula Soares

Foram nove anos. Nada em Curitiba se parecia com as aulas que eu fizera, portanto, preferi parar. Nesses anos, tive quatro meninas lindas, aprendi corte e costura, bolo confeitado, docinhos de festa, pintura em porcelana e até um pouco de aquarela. Voltei à Cultura Inglesa, primeiro como aluna, depois como professora. Da Cultura tenho as mais lindas memórias. A dança eu preenchi com aulas com uma Dona Anne, em um pequeno estúdio na mesma rua onde eu morava: uma barre au sol mistura de Nina Vershinina e Torquemada, cuja violência me deixava às vezes sem poder me mexer. Uma combinação de Graham, Horton e da própria Nina, fazia as aulas parecerem palatáveis. Mas Loraci Setragni traria Lorna Kay para Curitiba e, com ela, eu reencontrei o ballet que havia conhecido. Em um determinado momento, levei a Lorna para o Guaíra. Até então, minhas meninas faziam ballet onde hoje é a sala da diretoria, e o professor dava aula de terno, gravata e sapatos sociais. As circunstâncias não me recordo, mas de que fui eu quem levou a Lorna para o Guaíra, tenho certeza. Ela mesma confirmou no vídeo que mandou para a festa dos 40 anos da escola (na festa cortaram a introdução que citava meu nome, mas a filha Beatriz já havia me mostrado o vídeo). De Lorna, a direção passou para Yara de Cunto, que me incentivou a fazer o exame do último ano da escola. Dancei um pas de deux com João Carlos Caramês,(saudoso Robin,) a “Suite en Bateaux “, de Debussy. O encontro com Umberto Silva fez parecer possível que eu entrasse para o Corpo de Baile do Teatro Guaíra. Foi um ano de aulas particulares, e mais a barre au sol da Dona Anne, e quando fiz a audição, entrei. Maître: Yuri Shabelewski.

Na minha longa vida futura, tive muitos anos maravilhosos, mas poucos tão divertidos quanto dançando neste corpo de baile. No próximo texto conto mais.

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30.08.2018
De como a aliança com nome de Francisco veio parar na minha mão esquerda
Uma pausa no relato da minha vida de bailarina para explicar como vim parar em Curitiba.


Foto do meu casamento com Francisco

Antes da linda casa da Vieira Souto e do apartamento da Figueiredo de Magalhães, moramos num aprazível sobrado da rua Barata Ribeiro, de cujo jardim de inverno podíamos conversar com amigos que passavam na rua (hoje deve estar devidamente fechado, com grades poderosas). Foi ali sentada que vi entrar meu irmão Marcos, com o nosso vizinho Moisés e seu hóspede, um jovem estudante de medicina do Paraná. Levantaram a cabeça para nos cumprimentar e o paranaense, olhando para mim, me deu o mais lindo sorriso. Eu poderia jurar, mas não será preciso: acreditem, é a pura verdade. Olhei para minha mãe e disse: “É com esse que eu vou me casar!”.

Entretanto, dois impedimentos se colocavam entre este meu propósito. Primeiro: eu tinha 13 anos, usava tranças e recém ganhara uma boneca de Natal. Segundo, e mais grave: Francisco se apaixonou por Zélia, minha irmã mais velha, moça feita e linda.
Volta o curitibano para sua terra e mantém correspondência com suas novas amigas: cartas de afetuosa amizade para Dora e de arrebatada paixão para Zélia. Complicando mais as coisas, aparece no mesmo endereço o irmão mais velho de Francisco: Raymundo, um charmoso engenheiro de olhos verdes por quem Zélia tomou-se de paixão. Assim, em 1948, Dora amava Francisco, que amava Zélia, que amava Raymundo, que naquelas alturas se escondia para não magoar o irmão.

Mas Santo Antônio é poderoso e desfaz todos os nós. Em alguns meses, Francisco notou que Dora existia e o amava, já Zélia e Raymundo formaram um casal. Dora casou-se com Francisco e Zélia com Raymundo e, juntos, criaram onze “paulasoareszinhos”. Deus levou Raymundo muito cedo, mas esta que lhes escreve vai celebrar 65 anos de casada com seu único e duradouro amor.

No próximo texto voltaremos ao ballet, agora na então gélida Curitiba.

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06.08.2018
O início de tudo
Por Dora de Paula Soares

Three Little Ballerina – Vitali Bondarenko

Sempre gostei de dançar. O porquê não me perguntem, não saberia responder. Minha mãe era culta, lia Voltaire e Proust no original e amava artes plásticas. Mas meu pai, comerciante bem-sucedido, de música entendia de samba de raiz e serestas. Os genes da dança começaram comigo.

Eu amava dança e, claro, música. Minha primeira lembrança de dança vem do Colégio Santa Maria: um vestidinho verde de tafetá com a calçola combinando, outra de índio, creio que nas comemorações do descobrimento do Brasil. Com oito anos, em Belo Horizonte, fui matriculada primeiro na escola de Natalia Lesse, que tinha muito pouco a ver com ballet, mas, logo em seguida, fiz aulas com professor Carlos Leite. Nossa mudança para o Rio de janeiro me deixou muito tempo sem ballet.

Tínhamos um belo piano Pleyel e aulas com D.LIddy e os irmãos Francisco e Guilherme Mignone e logo fomos, minha irmã e eu, matriculadas no Conservatório Brasileiro de música. Mas o ballet demorou, até que comecei a frequentar as aulas na União das Operárias de Jesus. Morávamos em Copacabana e chegar às aulas significava uma hora de bonde e mais umas quadras a pé. Foram meses maravilhosos e após minha aula, podíamos observar a companhia ensaiando Pavane, assistindo Yelê Bittencourt, talvez com 16 anos na época. Também durou pouco. O deslocamento era pesado e fui para a escola da D.Leda Iuque. Eu já tinha 14 anos, e aquela toquinha colorida realmente não combinava comigo. Assim, atravessando a Nossa Senhora de Copacabana, fui ter aulas com D. Tânia. Pela primeira vez senti o rigor do ensino: D.Tania era, e continua sendo, uma professora severa. Na nossa sala dançava Isabel Seabra, que se tornaria primeira bailarina do Scala de Milão. Neste ano fui convidada pela minha amiga Heloisa Tamm para conhecer uma escola escondida numa casa de uma travessa da Djalma Ulrich, de uma russa que estava montando Les Sylphides e precisava de mais bailarinas. E foi assim, em 1953, que dancei a mazurca deste lindo ballet no palco do teatro Municipal do Rio de Janeiro. Como a russa havia conseguido o teatro não tenho ideia, mas foi uma experiência inesquecível.

Mas neste ano, um certo estudante de medicina curitibano já havia entrado na minha vida e a partir de 1954 meu destino sofreria uma grande reviravolta…

Na próxima eu conto!